João de Ferro: O resgate da iniciação masculina

No início de 1990, o poeta e ensaísta Robert Bly publicou “João de Ferro: Um Livro Sobre Homens”. A análise deste conto de fadas dos Irmãos Grimm, que destacava com analogias a necessária iniciação masculina, ficou 62 semanas na lista de Best Sellers do New York Times e se tornou a obra principal do chamado movimento mitopoético dos homens. Passados 20 anos do lançamento, o livro continua atual, pois muitos homens continuam em crise de identidade, presos numa masculinidade infantil, diante das imposições do patriarcado tóxico que exigem deles um papel de poder a qualquer custo – do contrário, vem o medo da humilhação.

E quando se fala em empoderamento masculino, é preciso deixar claro que não estamos falando da necessidade de resgate e fortalecimento desta masculinidade infantilizada do patriarcado, que incita o medo, o domínio e o ódio à mulher – como mostraram os bizarros grupos fantasiados que invadiram recentemente o Capitólio nos EUA –, mas sim da busca da masculinidade madura – desenvolvida pelo amor – e não pelo poder – do homem a si mesmo e à mulher, um apaziguamento com o animus e a anima de sua psique.

Para o psicanalista junguiano James Hollis, a criatura de João de Ferro, do conto dos Grimm, personifica uma dimensão masculina perdida, enjaulada no fundo de um mundo arquetípico. A libertação dessa criatura selvagem, que passa a guiar o príncipe menino em jornadas exteriores, representa a necessidade do homem de um pai iniciador como nas antigas comunidades tribais – não necessariamente o pai biológico, mas sim um iniciador masculino como o Velho Sábio arquetípico. Segundo Hollis, nessa ideal iniciação masculina, o menino precisa deixar psicologicamente (e não literalmente) o lar para poder crescer. Com o pai ausente, de forma física ou espiritual, o menino dificilmente conseguirá se afastar do forte complexo materno e ativar sua verdadeira natureza: o masculino primordial.

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*Fernando Porto Fernandes é psicanalista de abordagem junguiana e escritor. Trabalhou por 30 anos no jornalismo impresso, produzindo textos para jornais e revistas. Atualmente faz atendimento clínico e é autor do livro “Morte, Biografia Não Autorizada”, com o qual faz palestras sobre o tema “Pequenos e Grandes Lutos de Nossa Vida”. Contato pelo e-mail: portoterapeuta@gmail.com   

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