Conto do mês: Cine Normandie

Na sala do glamouroso cinema, o lanterninha assistiria a uma sessão exclusiva: o filme de sua vida. Sonho? Magia? Ou os dois?

(Ilustração: FrePix)

Eram onze e meia da noite. A faxina nas poltronas luxuosas do Cine Normandie tinha terminado. Nada mais justo então que José Manuel afrouxasse o colarinho do uniforme e descansasse um pouco em uma das poltronas centrais até a hora de ir embora.
“Zé, vou dar uma saída para comprar um sanduíche. Espere me para irmos juntos. Combinado?”, interrompeu Plínio.

O português não respondeu; apenas levantou o braço em sinal de aprovação. Realmente estava cansado e quaisquer dez minutos de cochilo, mesmo sentado, já seriam suficientes. Dois anos atrás – mais precisamente no fatídico ano de 1955 – teria culpado a válvula defeituosa do coração, que o deixava sempre cansado e que ocasionou em uma das cirurgias de risco da época – e da qual se safou milagrosamente.

Agora, cinco anos mais tarde, tinha certeza que era cansaço de um domingo de trabalho em que todas as sessões de filmes estavam lotadas. Todos para assistirem “Marcelino Pão e Vinho”, que ele já decorara a maioria das falas. As sessões, tão concorridas em um único dia, representavam trabalho árduo para os “lanterninhas” ao conduzirem casais, e às vezes famílias inteiras, em busca dos melhores lugares do Cine Normandie, no centro de de São Paulo.

José Manuel era um dos mais elogiados lanterninhas. Seguia à risca as normas do glamouroso cinema do grupo francês, de manter a elegância e educação no atendimento. Não importava o cansaço, ele sempre estava lá com o uniforme bem passado e sapatos brilhando. Plínio, seu colega, mantinha a mesma aparência, porém era mais debochado e às vezes perdia a pose e o respeito. Por exemplo: bastava alguém dar sinais de ausência de gorjeta no caminho à cadeira, para que Plínio largasse o pobre espectador no escuro do cinema, sem saber onde sentar.

Mesmo desaprovando a atitude de Plínio, José Manuel se divertia com os deboches do amigo e suas malsucedidas “espertezas”. Foi histórica, por exemplo, a sua gafe ao convidar o amigo madeirense (natural do arquipélago português Madeira) para acompanhá-lo a uma pretensa festa badalada de casamento.
“Zé, vou te levar a um casamento super-chique. Você vai ver o que é festa!”, garantiu o maroto colega brasileiro.

Na volta do casamento, os dois voltaram em silêncio no táxi até que José explodiu em gargalhada ao lembrar das baratas voando pela casa suja e desarrumada dos noivos. A cama, que ficava na “sala-quarto”, foi afastada para os convidados dançarem. Sem contar a luta – em vão – para conseguir um copo de cerveja e a disputa para conseguir um dos minguados sanduíches de queijo branco. Desde aquele dia em diante, Plínio desconversava, mas não evitava o riso cínico do amigo, quando o assunto era o “casamento do ano”. Mas continuava divertindo o colega com a promessa de mais uma festa badalada na semana seguinte.

No entanto, naquele final de noite de domingo, José Manuel estava muito cansado para pensar nas trapalhadas do divertido Plínio. Um turbilhão de pensamentos inundou sua mente em poucos minutos, até que foi dominado pelo sono.

Na tela, um momento mágico

Foi despertado de súbito, assustado – o que calculara não ser mais que alguns segundos depois que adormeceu. O barulho que o tinha despertado era do estalo do projetor que ligou de repente, iluminando a tela à sua frente. As luzes da sala tinham se apagado como se desse início a uma nova sessão. José Manuel se virou para gritar para o projetista quando foi interrompido pelo som de pessoas conversando pelos alto-falantes laterais, ao mesmo tempo em que a tela do cinema era preenchida pela imagem de uma família em um casebre. Quase instantaneamente reconheceu a imagem – o sotaque inconfundível, as roupas, os rostos das crianças e do casal de adultos – e percebeu que estava tendo uma visão de seu próprio passado, sua infância no interior da Ilha da Madeira.

Ele – que não é visto em cena porque seus olhos são a própria câmera de filmar – e outros sete irmãos estão jantando à mesa e conversando com os pais. É um momento de grande decepção para José Manuel que, com suas economias, havia comprado um bolo para impressionar a família. Porém, ao contrário dos constantes elogios dos pais ao irmão caçula João por atos semelhantes, o pequeno José Manuel e seu bolo foram praticamente ignorados diante do falatório dos outros irmãos e a divisão de atenção dos pais. Ele, um dos filhos do “meio”, não tinha o mimo dedicado ao caçula e nem a atenção devida que recebia o mais velho. Hoje, já adulto, Manuel entenderia que os pesados afazeres – e a grande família para sustentar – impediram-no muitas vezes de ter maior atenção do pai e da mãe.

Outros momentos difíceis desfilaram pela tela cinematográfica, quando ele enfrentara diversas vezes a chuva e o frio intenso para levar o almoço ao seu pai José, que trabalhava na mata cortando pinheiros para venda. Esse mesmo almoço que o tentava e o torturava com o cheiro apetitoso enquanto ele estava faminto e cansado – e muitas vezes com os pés descalços bem castigados pelo solo pedregoso. Mas José Manuel nunca cedera à tentação graças às lições de honestidade aprendidas com os pais.
Da mesma forma que momentos tristes de sua infância eram projetados em velocidade impressionante, dias de felicidade surgiam alternados para seu deleite, como o aprendizado “de ouvido” da gaita, do cavaquinho, da guitarra portuguesa, do acordeão e também dos “bailinhos”madeirenses dançados com energia, de mãos dadas com suas irmãs.

Mal teve tempo de rolar as primeiras lágrimas em seu rosto, quando sugiram rapidamente novas cenas do filme de sua vida. Primeiro, veio a difícil despedida da família no porto da ilha, quando, aos 17 anos – e próximo de ser enviado como soldado a uma colônia africana – teve de virar as costas à mãe Maria no barquinho de transporte, pois não queria sofrer mais ao ver a progenitora em prantos. Visualizava também o ovo frito em sua refeição de despedida – uma raridade para a família pobre. Tendo a guitarra como uma das poucas companhias de viagem no navio que embarcara – a outra seria de seu primeiro Agostinho – procurou se adaptar e tornar prazerosa a longa viagem até a “antiga colônia”, junto com outros emigrantes portugueses.

Visões da nova terra
Depois, em sequência mais rápida, o projetor do cinema mostrava seu primeiro dia de trabalho na produção de cestas de vime para o primo em São Paulo; os exames cardíacos que denunciaram a deficiência cardíaca. Em seguida, a cirurgia de risco, até finalmente chegar ao emprego no Cine Normandie.

De súbito, as cenas que foram surgindo deixaram-no gelado de medo e de surpresa. O projetor passou a criar cenas que nunca tinha visto em sua vida. Se fosse um vidente, saberia que estava uma viagem ao futuro. Ele se vê sendo convidado para largar o emprego no cinema e trabalhar na fábrica de alimentos Quaker. Depois seu reconhecimento como um grande vendedor e, na cena seguinte, mais uma decepção: é forçado à injusta demissão por denunciar relatórios falsos de maus vendedores. O filme continuou, ao mostrar o namoro com a brasileira Marly, o emprego na fábrica de garrafas térmicas com o futuro cunhado Darly – onde novamente mostrou seu talento para vendas. E as alegrias com o nascimento de cada um dos dois filhos.

O filme passou a rodar mais rápido, mas curiosamente sem que ele perdesse a atenção dos fatos. Mostrou seu sacrifício em construir uma loja de materiais de construção, junto com o sócio – um imigrante português do continente. Com o novo negócio, veio a prosperidade, novas propriedades, o falecimento do sócio, as acusações injustas dos familiares que o sucederam, a sociedade desfeita e, finalmente, a aposentadoria, onde procuraria prazer na produção de vinho artesanal e na apresentação semanal de acordeão dentro do grupo folclórico da colônia madeirense, a relembrar e a fortalecer suas origens além-mar…

De volta à realidade
Quando estava se deleitando com as inúmeras viagens de retorno à terra natal, à amada família na Ilha, o filme parou bruscamente. Ficou por alguns segundos no escuro do cinema até sentir o braço direito sendo tocado e chacoalhado. As luzes do cinema quase o cegaram e, aos poucos, viu o colega Plínio à sua frente.
“Zé, acorda rapaz. Já voltei. Temos que fechar”
“Como assim??”, indagou José Manuel, sobressaltado pelo despertar. “Demoraste quanto tempo? Uma hora?”.
“Que é isso, Zé? Demorei só quinze minutos até o bar da esquina!”
Desconfiado do amigo brincalhão, olhou para o relógio… Sim, era verdade! Tinham passado quinze minutos.
“Você estava sonhando com alguma atriz de cinema, é? Vi um sorriso maroto no rosto!”
“Sonhei que… Rapaz, parece que foi um monte de coisas, mas não me lembro de nada!”
“Bom, então esquece e vamos para casa que amanhã tem mais chatos para assistirem o ‘Marcelino’. Eta filme que não sai de cartaz, sô! E o patrão quer faturar mais, né?”

José Manuel deu de ombros, levantou-se e passou a fechar as portas de emergência enquanto Plínio subiu a escada para desligar a luz da sala de projeção.
“Aaaaiiii!”gritou Plínio. “Queimei a mão, Zé!”.
O lanterninha português correu até a sala de projeção. “O que houve?”
“O desgraçado do João disse que tinha desligado o projetor para esfriar. Você ligou e tava vendo de novo o filme, Zé? Faz mais de uma hora e esse treco está tão quente que queimou minha mão!”
José Manuel deu de ombros, sem entender. “Como disseste, estava a cochilar durante os minutos que saíste”, respondeu.
“Não consigo entender! E o pior é que os cabos estão desconectados como o João costuma deixar”, disse Plínio.

Tudo como era antes

O colega madeirense coçou a cabeça e novamente deu de ombros. Tentava se lembrar de algo importante do sonho, mas não conseguia. Parecia uma tela em branco.
Após trancarem a porta, os dois lanterninhas – já com roupas mais leves de passeio – começaram a caminhar em direção à Avenida São João.
“Zé, tenho uma idéia”, disse, Plínio, puxando o braço do amigo. “Uma amiga está dando hoje uma festança de aniversário, cheia de comilança. Vamos lá. É coisa fina, Zé!”
“Com ou sem baratas voadoras?”, indagou maliciosamente o colega, abrindo um sorriso de escárnio.

Plínio ameaçou fechar a cara. Depois, deu um tapinha amigável na nuca do madeirense. Os dois teriam mais dias juntos pela frente, sempre brindados pelas divertidas falácias de Plínio. Porém, daquele dia em diante, José Manuel teria um carinho especial pelo Cine Normandie, premiado naquele dia mágico, por algo que ele não conseguiria se lembrar mais com clareza. Uma sensação agradável. No percurso de sua vida, nos momentos felizes e tristes, teria aquilo que chamam de “déja vu” – a conhecida frase “isso já me ocorreu”.
Foi um momento mágico proporcionado pela sala de cinema que hoje já não mais existe na cidade. E uma das peças que compõem o belo mosaico da vida de um honesto imigrante.

Fernando Porto Fernandes é psicanalista de abordagem junguiana e escritor. Trabalhou por 30 anos no jornalismo impresso, produzindo textos para jornais e revistas. É autor do livro “Morte, Biografia Não Autorizada” e faz palestras sobre o tema “Pequenos e Grandes Lutos de Nossa Vida”. Contato pelos e-mails: psicanalista@omeurefugio.com.br ou portoterapeuta@gmail.com

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