Luto por cães é legítimo?

Para quem não é maluco por eles, isso pode ser tratado como “exagero” e “loucura”. Para os donos, não há como retomar a rotina de vida sem vivenciar um período mínimo de elaboração da perda – e eles têm razão. 

Foi em uma noite de sexta-feira triste, difícil de apagar da memória. Yuri apresentava um comportamento oposto ao do dia anterior, quando passeara forte e disposto, para alegria dos amigos da vizinhança, que o receberam com o entusiasmo de sempre.

A fatídica sexta se iniciou com gemidos de manhã e vômitos incontroláveis. Durante o dia, não comeu nem um pedaço de comida ou petisco e vomitou toda a água de coco que bebera na hora do almoço. Permaneceu deitado, contorcendo a barriga de dor e defecando sem sair do chão – atitude anormal para quem tinha a disciplina adquirida de sempre procurar a grama do jardim. O veterinário receitava, por WhatsApp, remédios para enjôo e gases, mas sem convicção, prevendo o pior. Nenhum medicamento parava no estômago.

Desesperançoso, principalmente após a repetição de dias agonizantes como aquele, fui até o oratório, que tão pouco frequentava, e pedi às forças espirituais possíveis de minha fé que tivessem misericórdia daquele ser puro e inocente e o levassem em paz. Deitei em seguida a seu lado para acariciá-lo e acalmar o ofegar agonizante. Poucos minutos depois, Yuri parou de respirar e sua boca entortara para dentro. Demorei a acreditar no fim, mexi em seu corpo e empurrei o corpo duro esperando pela reação. Mas era o fim – que eu desejava desesperadamente e, ao mesmo tempo, odiava por ter acontecido. Sozinho, à espera da chegada de minha esposa, só me restou sentar, bem distante do corpo.

Voltando ao título indagador deste artigo – “O luto por cães é legítimo?” – digo agora, por experiência própria, que tal pergunta pode ter uma óbvia resposta afirmativa para donos e fãs dos bichos de quatro patas. E, assim, como ocorre com os seres humanos, defendo ser necessário um recolhimento de um ou mais dias das atividades diárias. No entanto, há muitas pessoas – na grande maioria, sem pets em casa – que acham absurda a ideia de alguém se ausentar do trabalho e ou de compromissos para vivenciar o luto de um animal e, consequentemente, recuperar-se da triste perda.  Já escutei, inclusive, em várias conversas públicas, gente ironizando quem trata cão ou gato como alguém da família.

Na minha opinião, há posições extremas que merecem ser rechaçadas em relação aos relacionamentos dos seres humanos com cães e gatos, pois existem tanto pessoas com obsessão exageradamente patológica por animais domésticos como outras, na outra ponta, com atitudes frias, até perversas, em relação a eles – a ponto de torturar ou de envenenar cães.  Neste meio do caminho, vencem as estatísticas de que os pets fazem muito bem terapeuticamente a adultos e crianças e que conquistam esse direito de se tornarem parte da família. Por isso, o luto deve ser diferenciado, pois alguém ativo no trabalho e apoiado por familiares precisará de menos dias de “recolhimento” e ajuda terapêutica do que um idoso sozinho, que tinha seu cão como única companhia afetiva.

Yuri, ainda filhote, clicado por uma lente “fish eye”

Sim, muitos cães são chamados de “filhos” para horror dos “antipets”, mas podem, mesmo assim, também ser tratados com equilíbrio, sem contrariar sua natureza. Podem dormir dentro da casa com a família, mas sem a bizarrice doentia de passear com roupinhas e em carrinhos de bebês ou comer nos mesmos pratos dos donos. Faço parte desta categoria de donos que sempre buscaram o equilíbrio – pelo menos é o que acho – ao não permitirem que seus cães subam e dominem camas e sofás, além de discipliná-los a respeitarem e ficarem no seu canto quando os humanos estão almoçando ou jantando. Desta forma, preserva-se a saúde do animal contra a obesidade ou ingestão de alimentos prejudiciais e evita-se um comportamento inadequado e dominador dentro de casa. E, claro, é uma questão de higiene geral.

Mesmo assim, por não ser pai, confesso que é muito difícil não projetar tal carga psicoemocional em meu cão e, apesar de resistir inutilmente, já o chamei, muitas vezes, de “filho”. Minha faceta de “dono sério” foi derrubada, no decorrer de 10 anos, por um golden retriever extremamente manso, que me recebia docemente, de rabo abanando e movimentos brincalhões, a cada vez que virava a chave da porta. E, claro, abalei-me emocionalmente nos primeiros dias quando testemunhei sua partida, descrita na introdução, após ele ter resistido como um touro a seis cirurgias de câncer (o temido mastocitoma) nos últimos quatro anos.

Yuri, companhia constante em meu set terapêutico

Alegria contagiante

Yuri foi o responsável por todas as grandes amizades que conquistei na vizinhança do bairro: a Cláudia e o Marcelo, “pais” do grande labrador Barti (também falecido recentemente), que me apoiaram muito no enterro; as atendentes do pet shop, que paravam seu trabalho para agradá-lo com petiscos; os manobristas da academia de ginástica, como o Mané, que o posicionava a seu lado para longos momentos de conversa e afagos; o casal da ótica, Dora e André, que, junto com a sua filha, a doce Giovana, mimavam-no com brinquedos e biscoitos; o “seo” Alcione, que atravessava a rua toda a vez que o via;  a Luci, que fazia sua tosa e que cuidava dele nas férias;  sem contar a legião de amigos caninos, com seus gentis donos, como é o caso do labrador Ares, o saudoso golden Bruce, o chowchow Shoyo, a puig Terezinha, o golden Chico, o mestiço Sírio, o sem-raça-definida Fidel, a labradora Bela, dentre muitos outros…

Juntos, em uma das viagens pelo interior de São Paulo
Rosalina, em close especial com Yuri

E a pergunta é: Como eu, um paulistano com nossa típica frieza cultural, poderia imaginar ter conhecido tanta gente sem este saudoso gigante estabanado, de pelos claros e olhos dóceis, que quase sempre me puxava para se encostar nas pernas da primeira pessoa que abrisse um sorriso em sua direção? Isso sem falar na transformação do medo traumático por cães em amor de minha esposa, Rosalina, que passou a cumprir seu papel de supermãe, não só no em cada abraço exagerado, mas na zelosa troca de ataduras e limpeza dos cortes de cada cirurgia.  Ela, claro, também teve o mesmo baque emocional com a repentina – mas esperada – partida, após dias de sofrimento final do valente “gordinho”.

 

 

Luto até quando?

A morte de Yuri me pegou despreparado e, ironicamente, para alguém que já escreveu sobre compreensão e superação do luto humano no livro “Morte – Biografia não Autorizada”. Faltou em minha obra, justamente, pesquisar sobre como lidar com a perda de seu querido animal de estimação. Talvez porque já lidei com mortes de familiares, mas nunca com a de um cão tão apegado. Na infância, minha mãe me poupou de ver o sacrifício da cadela Meg, com cinomose. O máximo que vivenciei de morte de pet, também ainda garoto, foi de meu hamster, Zequinha, que tratei de enterrar dentro de uma caixa de sapato com todas as “honras militares”.

E minha experiência dolorida com Yuri apenas reforçou o que aprendi para tratar meus pacientes em luto. Dos cinco estágios previsíveis, descritos pela psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross, em seu livro “On Death and Dying”, passei pela Negociação (Orei, como há muito tempo não fazia, para que partisse naturalmente e para acabar o sofrimento, e foi isso que aconteceu momentos depois); Negação (Demorei muito para acreditar que ele tinha morrido e chequei várias vezes o corpo, esperando qualquer sinal de reação), Raiva (Esta estourou do nada, dois dias depois, quando quase entrei numa luta corporal injustificada com um funcionário da companhia de luz por um corte de energia equivocado), Depressão (Um domínio total de abatimento, nos dois primeiros dias, que se refletia em cada instante repentino de vazio que sentia na casa e na rotina) e Aceitação (A convicção, adquirida com dificuldade, da liberdade do sofrimento do bichinho, que piorava a cada dia).

Túmulos de animais no Cemitério São Francisco de Assis, em Campinas

Para superar essa quase interminável sensação de vazio da perda, segui – não com a disciplina de um terapeuta, mas sim institivamente como sobrevivência psíquica de um “pai” enlutado – a cartilha do psicólogo J. William Worden que é: aceitar e elaborar a realidade da perda; ajustar-se a um ambiente onde está faltando a pessoa que faleceu (ao esconder e doar todos os objetos do meu cão); reposicionar, em termos emocionais, a “pessoa” que faleceu e continuar a vida (isso ainda estou trabalhando, aos poucos, com minha própria terapeuta).

O que fazer quando seu cão morre?

Não poderia deixar de fora essa questão da morte do pet, que é o mesmo problema quando se trata de falecimento humano: evitamos, influenciados por nossos tabus ocidentais, os preparativos antecipados para o enterro de quem amamos. E o que acontece? É uma tremenda angústia tentar descobrir o que fazer justamente quando estamos mais abalados. No caso do Yuri, que morreu em casa, tive, de meus cunhados, o apoio emocional e a ajuda imediata na hora de cobrir o corpo com pano e plástico. Depois, enviei mensagem para o veterinário, que me indicou três telefones de cemitérios de animais.

A outra opção era levar o corpo num hospital veterinário de plantão (era uma sexta à noite) e deixar para que eles (pagando obviamente) o colocassem num freezer até o Centro de Zoonoses da prefeitura recolhê-lo para incineração. Como dono paranoico, duvidei do destino que dariam ao corpo e, para garantir um fim digno a Yuri, responsável por 10 anos de muitas alegrias para nossas vidas, consegui com o vizinho, dono do finado Barti, a indicação de um crematório em Campinas (Cemitério de Animais São Francisco de Assis, site: www.cemiteriodeanimais.com.br) – um custo a mais que valeu a pena não só pelo alívio emocional, mas também pelo impressionante profissionalismo do proprietário, Marcelo, que teve total respeito à nossa dor. Logo pela manhã, a ambulância recolheu o corpo para ser conservado em local adequado e o gerente nos deu a liberdade de ligarmos dias depois para decidirmos o dia da cerimônia de cremação.

Na sexta seguinte, ao meio dia e meio, em Campinas, vimos o corpo de Yuri no caixão de madeira pela última vez na singela capelinha de velório do cemitério. Com uma carimbeira e massinhas de modelar, mexi delicadamente nas patas e frias duras para eternizar as patas do nosso “velhinho”. Na parede, fitei a oração de São Francisco de Assis e, mesmo sendo um católico nada fiel, repeti cada frase com amor, numa triste e doce despedida. Em seguida, acompanhei a retirada do corpo até a fornalha, que foi então fechada – uma cena muito triste, mas necessária.

“Ao pó, voltarás…”

Depois de três horas de espera, pegamos a caixinha e voltamos para casa, com as cinzas do grandão, que serão espalhadas, em breve, bem no lugar do jardim que ele adorava cavoucar, contra nossa vontade.

Fornalha de cremação do Cemitério de Animais

O vazio do luto tem diminuído a cada dia, assim como as dores musculares somatizadas que surgiram logo após o suspiro final. Volto à pergunta do título:  “O luto por cães é legítimo?” Respondo: Sim, não só legítimo como essencial para quem convive e aprende com criaturas tão generosas e tolerantes com nossos erros. Reforcei com ele o significado de amor incondicional (convençam-me de que é só sobrevivência), tolerância (com os outros cães, que ele nunca reagiu com agressividade), coragem (nunca fugiu ou lutou contra os exames doloridos e as cirurgias invasivas), persistência e perseverança (mesmo sem um latido, permanecia imóvel por quase uma eternidade, na frente daquilo que desejava até cedermos), lealdade (cúmplice no silêncio nos meus momentos de tristeza), gratidão (o corpo encostado em nós após uma boa refeição, brinquedo ou passeio) e bondade (nunca atacou qualquer pessoa).

E se alguém ironizar ou rir do seu período de luto, apenas dê de ombros e releve o desconhecimento de quem nunca teve a oportunidade de conhecer o verdadeiro amor da natureza.

Fernando Porto Fernandes é psicanalista de abordagem junguiana e escritor. Trabalhou por 30 anos no jornalismo impresso, produzindo textos para jornais e revistas. É autor do livro “Morte, Biografia Não Autorizada” e faz palestras sobre o tema “Pequenos e Grandes Lutos de Nossa Vida”. Contato pelos e-mails: psicanalista@omeurefugio.com.br ou portoterapeuta@gmail.com 

Mistérios da natureza: a dogo argentina Maya, do amigo Luis Humberto Carrijo, em uma atitude inédita de carinho consolador comigo, dias após o falecimento de Yuri – e mesmo sem nunca tê-lo encontrado pessoalmente!
Yuri e seu paraíso terrestre, o jardim, onde será eternizado

 

14 comentários Adicione o seu

  1. Lucileide Marques Barbosa disse:

    Obrigado por me dar o prazer de ler essas lindas palavras,de conhecer a história de vida do querido Yuri a fundo,e de saber que ele foi e é muito amado por todos que o conheceram,sou grata á Deus por ter tido o prazer de viver lindos momentos com ele.
    Grande beijo no seu coração, que Deus conforte seu coração e de todos que amam o Yuri.

    1. Eu que agradeço por todo seu carinho com ele, Luci. Um grande abraço

  2. Lia de Souza Santos disse:

    Passei por tudo isso com minha gatinha Ariel não sei porque mas ela me completava apareceu na minha vida Do nada jogada abandonada no portão da minha casa num dia de chuva doente rabo quebrado e sega de um olho eu pensei que se cuidasse dela estaria fazendo uma boa ação. Para ela mas anos depois descobri que ela veio para me salvar ela passou. A ser uma amiga muito fiel seu amor era tão grande que arriscou sua própria vida para salvar a minha matando uma cobra Coral na porta da minha casa. Que com certeza eu iria pisar em cima dela pois estava escuro Minha Ariel Morreu de. Falência nos rins teve Câncer perdeu as duas orelhas Mas ouvindo ninjas orações. Deus libertou ela do Câncer. Morreu velhinha Entendo tudo. Que vc está falando ainda sinto falta dela

    1. Sinto muito por sua perda, Lia, e te agradeço por compartilhar sua história
      Abs

  3. Lino disse:

    Emocionante, fernando!!nossos sentimentos…Nós que conhecemos tão pouco o yuri, nis apaixonamos por ele na primeira vez que o vimos!!!Abraço

    1. Muito obrigado pelo carinho, Lino!
      Abs

  4. ANA MARIA DA COSTA CORREIA disse:

    Fernando
    O relato de sua dor me levou às lágrimas e me transportou para o momento de despedida de meus cães.
    O luto por nossos bichinhos é mais que legítimo.
    Desejo que você e Rosalina consigam ter essa dor transformada em saudade.
    No momento apropriado espero que tenham um outro amigo de 4 patas, lhes fará muito bem.
    Grande abraço e obrigada por dividir suas lembranças !
    Com carinho

    Ana

    1. Muito obrigado pelo carinho, Ana!
      Abs

  5. Denise disse:

    Eu tenho certeza que o tempo de luto é necessário, eu perdi minha BB em 13 de abril de 2017 não sei se posso dizer que superei a perda dela mas fiquei pelo menos uma semana que não consegui fazer quase nada de trabalho, não consigo ver um animalzinho parecido com ela e não cair no choro de saudade.

    1. Sinto muito por sua perda, Denise, e muito obrigado pela mensagem
      Abs

  6. Keli Cristina Jacili Zeviani disse:

    Muito bonita a história de vida que vocês tiveram com o Yuri, quando aprendizado e amor foi compartilhado entre vocês!

    Posso entender a sua perda. Perdi meu cachorro à dois dias e minha família está abalada!
    Minha filha perdeu o companheiro de todas as noites, mas ele ajudou a vencer o medo do escuro e de dormir sozinha!

    Nosso Spaik descansa para sempre no nosso jardim e agora só ficam as lembranças boas e a saudade!

    Moro no Estado do MS, onde uma das principais atividades econômicas é a pecuária e somente à poucos anos aconteceu uma sensibilização através de duas universidades de medicina veterinária instaladas em minha cidade, para que no futuro haja uma conscientização de que os animais domésticos precisam ser respeitados!

    Este artigo é muito importante para trazer conforto a quem sofre pela perda de um ente querido e como porta vóz de minha família posso dizer com toda a certeza que nos conhecemos o verdadeiro e sincero amor da natureza!

    1. Obrigado por compartilhar também sua história, Keli
      Um grande abraço

  7. Gustavo Malatinszky disse:

    Fernando,
    Meus sentimentos por sua perda! Conheço muito bem essa dor e esse triste período.
    Parabéns pelo artigo! Te digo que o luto, a dor, a depressão e a tristeza pela perda de um pet são iguais à perda de um ente familiar – experiência própria. É difícil aceitar a perda e a usência da presença deles demora a ser superada. Mesmo depois de 7 anos sinto falta e saudades do meu amigão. Agora minha filha tem um “fura saco” que preenche o vazio e nos alegra todos os dias.
    Aqui em casa, a Rose e eu ficamos de luto por um longo período. Acredito que ele esteja com ela agora, seja onde for, e os dois devem estar felizes.
    Dizem que pegar um outro pet amenisa a dor e devolve a felicidade.
    Não sei precisar, cada um tem uma reação diferente. Aqui em casa, mesmo um ano após o luto, provou ser verdade. Talvez, se tivéssemos adotado o filhote antes, sofreríamos menos.
    Não conheço sua opinião sobre a ideia de outro “amiguinho”, só posso compartilhar com você as minhas experiências.
    Parabéns pelo artigo, muita força e paz!
    Abraço,
    Gustavo Malatinszky.

    1. Meu amigo Malatinszky, eu te agradeço pelas palavras gentis e por compartilhar sua história!
      Um abraço

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